‘O Brasil saiu do isolamento’, diz embaixador aposentado sobre viagens de Lula

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A vitória nas urnas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) marca uma guinada da imagem do Brasil no exterior e abre uma oportunidade para o país retomar a agenda do multilateralismo. É a avaliação do diplomata Sérgio Amaral, conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Exteriores (Cebri) e que esteve à frente das três mais importantes embaixadas brasileiras no exterior: Londres, Paris e Washington. “O Brasil mudou substancialmente aos olhos do mundo. E essa mudança se manifesta em vários campos. A parte mais visível e mais perceptível é em relação às questões ambientais. Estamos vindo, também, numa afirmação do compromisso com a democracia”, observa. De acordo com o embaixador aposentado, o novo governo precisará conciliar as promessas de responsabilidade social com o fiscal. “Se o governo não conseguir controlar o quadro fiscal, vamos ter a volta de certos comportamentos da economia que não são favoráveis ao investimento”, alerta. Amaral ressalta, ainda, que o Brasil precisará aproveitar as oportunidades que se abrem com a guinada na área ambiental, como a ratificação do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul. “Precisamos deixar uma visão do passado na política externa e adotar uma visão de futuro”, salienta. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Com o resultado das eleições, o país realmente mudou aos olhos do mundo, como disse Lula? Qual a sua percepção?
O Brasil mudou substancialmente aos olhos do mundo e se manifesta em vários campos. A parte mais perceptível é em relação às questões ambientais. O Brasil sempre teve, desde a Conferência do Meio Ambiente no Rio de Janeiro, em 1992, uma postura muito ativa em favor da proteção do meio ambiente e no combate às mudanças climáticas. Isso trouxe para o Brasil uma liderança nesse campo. Durante o período (do presidente Jair) Bolsonaro, a postura brasileira mudou substancialmente, a começar, por exemplo, pela decisão do Brasil de não acolher a COP, que deveria ocorrer logo no primeiro ano do governo. Depois, o Brasil desaparelhou o sistema de proteção da Amazônia e de combate ao desmatamento. O segundo ponto foi que a comunidade internacional, nos últimos anos, teve uma postura muito firme na defesa da democracia. Por exemplo, no caso dos Estados Unidos, para (o presidente Joe) Biden, a democracia é um foco da sua política interna e que ele se dispôs a unir o país em defesa da democracia. Enquanto isso, no Brasil, vivemos vários momentos em que a democracia se viu ameaçada. O próprio estatuto da eleição também se viu ameaçado. Estamos revertendo essas mudanças que haviam sido feitas por Bolsonaro. O Brasil está voltando às suas posições tradicionais, sobretudo na diplomacia.
Como avalia a passagem de Lula pela COP27?
Acho muito importante para marcar exatamente essa diferença. Essa ida, sobretudo, foi para marcar uma posição. Ele é um ícone e uma liderança internacional. E para o Brasil, neste momento, isso é importante, porque o país tinha se isolado, era visto como um pária na comunidade internacional. As aparições e manifestações que fez recolocam o país na posição que sempre teve, de liderança em temas que a comunidade internacional, hoje, dá muita importância.
O cenário no primeiro ano do novo governo será desafiador, com perspectiva de desaceleração e até mesmo de recessão global, para os mais pessimistas. Como vê esse desafio para o país no cenário internacional?
Difícil porque, em primeiro lugar, a economia norte-americana ainda está com uma inflação alta, está com uma retomada ainda insegura. Tem a guerra entre Rússia e Ucrânia, que afeta o abastecimento de alguns grãos, como é o caso do trigo no Brasil. O cenário é de muita incerteza e isso realmente não é bom para os investimentos estrangeiros que queremos receber no Brasil, para justamente promover a retomada.
O mercado ficou incomodado quando Lula levantou dúvidas sobre o comprometimento com a responsabilidade fiscal. Será um dos grandes desafios do novo governo acomodar as promessas de campanha sobre o combate à pobreza com o equilíbrio das contas públicas. Pois é sabido que Bolsonaro não deixou o quadro fiscal tão bonito como o ministro da Economia, Paulo Guedes, pinta.
Não mesmo, é bastante difícil. Nos últimos anos, houve uma grande deterioração das camadas da população mais pobre. Vai ter que combater a fome e, em alguns casos, distribuir renda, como é o caso do Bolsa Família. Mas, do outro lado, se o governo não conseguir controlar as contas públicas, teremos a volta de certos comportamentos da economia que não são favoráveis ao investimento. E precisamos desse investimento para promover o emprego e o crescimento.
A PEC da Transição vai no caminho errado?
Não é errado buscar cumprir os compromissos assumidos na campanha. O problema é que os números apresentados na PEC são números muito altos e superiores a R$ 200 bilhões. É preciso verificar, realmente, se será necessário um dispêndio dessa magnitude, e é preciso que explicar à população. Se ela entender, o impacto sobre a economia será menor. Mas se não tiver o entendimento da população e dos agentes do mercado, o impacto será maior. Existe, também, a falta de entendimento do que seja o mercado, porque aparece como sendo algo fora da sociedade, motivado unicamente pela ganância. O mercado somos nós mesmos, à medida que colocamos o nosso dinheiro na caderneta de poupança ou na aplicação bancária. Se isso não for feito em um clima de confiança, vai gerar a dúvida se o dinheiro aplicado, depois, vai ser pago. O mercado não é uma entidade fora da realidade do país, o mercado somos nós.
A dívida pública, em grande maioria, é interna. E, portanto, os credores estão aqui mesmo. São bancos, gestores, investidores brasileiros…
A maior parte da dívida pública é interna. E nós vamos precisar daqueles que aplicam e compram os títulos do Tesouro. É preciso que tenham confiança. Se não tiverem, o governo não vai conseguir financiar os investimentos necessários para cobrir os deficits das contas públicas. Se as pessoas entenderem bem esse processo, acho que a incerteza pode ser reduzida.
Para isso, será preciso bons nomes na equipe econômica. Como avalia os nomes contados para o Ministério da Fazenda que vêm sendo ventilados?
Têm nomes muito bons. Conheço André Lara Resende e Pérsio Arida e tenho total confiança neles. Acho que eles têm procurado justamente encontrar uma saída para essa questão: como atender a demanda social justificada e, ao mesmo tempo, não provocar uma incerteza maior.
É possível caminhar na direção do crescimento em um cenário em que o mundo vai crescer menos ou até entrar em recessão?
Sim. O cenário não é favorável e não está promovendo necessariamente a retomada do crescimento. Mas é complicado prever. Se China aumenta, por alguma razão, a compra das nossas commodities alimentares, ou os investimentos no setor imobiliário, só isso é suficiente para uma retomada da demanda, para uma maior exportação do país. O mercado internacional não está bem, mas existem nichos que podem nos favorecer.
A pauta exportadora brasileira é predominantemente composta por commodities agrícolas e minerais. O deficit da balança industrial é crescente, podendo chegar a R$ 125 bilhões, pelas projeções da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). É possível que a indústria volte a ter protagonismo no comércio exterior?
É natural que, à medida que o país cresça e se desenvolva, o percentual relativo à atividade industrial diminua, porque se expande o setor de serviços. Somos uma economia de serviços. Não vamos ter, como décadas atrás, 20% a 30% do crescimento vindo do setor industrial — não é mais compatível com a evolução da nossa economia. O setor de serviços é o que, hoje, está se expandindo mais rapidamente. E no caso do Brasil, além dos serviços, temos o setor agrícola, que é altamente competitivo e está exportando para o mundo inteiro. Não podemos achar que a exportação do agronegócio seja ruim. É bom, mas queremos agregar mais valor ao produto agroindustrial — e isso podemos fazer.
Qual deve ser a agenda nesse sentido no próximo governo?
Primeiro, acho que não deve haver só um objetivo, que é aumentar a produção industrial. Virá naturalmente quando fizerem as reformas que precisam para baixar o custo da produção, do transporte e dos impostos no Brasil, que não favorecem a agregação de valor. É também o resultado de investimentos na ciência e na tecnologia para que nossos produtos industriais sejam competitivos.
Em relação à transição energética, em que áreas o Brasil pode se diferenciar?
O agronegócio é altamente competitivo e continuará trazendo muitas receitas. Mas temos, também, outros setores muito positivos para o país. O de serviços muitas vezes está acoplado à exportação do agronegócio, porque não vendemos apenas grãos, mas também produtos processados. Temos uma matriz interna de eletricidade muito positiva porque é limpa, mas podemos desenvolver as energias alternativas — solar, eólica… Muitos países estão dando nova atenção à energia nuclear. Tem uma série de coisas que precisamos olhar e ver se fazemos as opções corretas.
Acha que é possível retomar a agenda multilateral no cenário atual, com as economias se voltando mais para si mesmas e de aumento do protecionismo? É possível avançar em acordos de livre comércio?
Sim, mas precisamos negociar mais acordos comerciais. Estamos na iminência da ratificação do acordo entre Mercosul e União Europeia, que dará um impulso grande às exportações brasileiras.
O acordo UE-Mercosul ficou parado por conta do aumento do desmatamento…
A nossa política ambiental (do atual governo) é totalmente equivocada. Levou ao isolamento do país. A partir da nova política ambiental e de combate às mudanças climáticas, podemos ter uma cooperação maior em torno de algumas de energias alternativas. teremos a volta dos investimentos neste campo no Brasil.
A energia alternativa vai ser um ponto estratégico para o próximo governo?
Sem dúvida. O avanço de uma agricultura de ponta, com valor agregado, é um dos caminhos mais importantes para o país agora. E a transição para a economia verde será muito importante. É possível termos indústrias com equipamentos para que sejam menos poluidoras. Isso é uma contribuição para o equilíbrio de carbono. A transição do mundo é de uma economia verde para uma energia alternativa. Precisamos estar abertos aos investimentos que poderão vir. A Noruega e a Alemanha restabeleceram o Fundo Amazônia, de promoção das políticas ambientais.
Lula sinalizou, no Egito, sediar a COP30 no Brasil, em 2025…
Basta dar uma sinalização adequada. A partir de agora, o Brasil volta a ser um país comprometido na luta contra o desmatamento, contra uma economia de carbono e por energias alternativas. Essas sinalizações dadas com credibilidade bastam.
Como avalia essas manifestações antidemocráticas?
Uma movimentação que não tem uma base real, acredito que não tenham sustentação, porque não existe apoio da maioria da população. Não houve irregularidade nas eleições, ao contrário. Veja o paralelismo entre as políticas antidemocráticas de (Donald) Trump e as dos bolsonaristas. Qual foi a consequência nos Estados Unidos? Nas eleições legislativas, o Trump, que esperava ter uma onda favorável, não teve. Os democratas conseguiram retomar o Senado. Trump está saindo desmoralizado porque os candidatos que apoiou perderam.
O atual governo promoveu um rebaixamento nas embaixadas para ajustá-las à ideologia que defende?
Contrariamente à nossa tradição, durante o período Bolsonaro o país abandonou algumas das posições mais tradicionais da diplomacia, que era motivo de admiração de outros países, sobretudo na América Latina: o compromisso com o multilateralismo, com as causas associadas à melhora do nível de vida das camadas de mais baixa renda; uma diplomacia voltada a um grande entrosamento e parceria e cooperação com nossos vizinhos. Tudo isso pode ser restaurado. Os danos acumulados em quatro anos podem ser revertidos com facilidade.

Por: Rosana Hessel – Correio Braziliense

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