Consumo de café aumenta riscos de problemas cardiovasculares em hipertensos

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Segunda bebida mais consumida do mundo, atrás apenas da água, o café é parte da rotina de milhares de pessoas. Entretanto, o consumo exagerado pode trazer malefícios à saúde. Especialmente para quem tem pressão alta. Um estudo publicado na última edição do Journal of the American Heart Association mostra que ingerir duas ou mais xícaras de café por dia está associado ao aumento do risco de morte por doença cardiovascular entre pessoas com hipertensão grave. A vulnerabilidade, indica a análise com dados de 18,6 mil pessoas, pode dobrar.
Pesquisas anteriores vinham mostrando os benefícios do café na prevenção de ataques cardíacos ou derrames em indivíduos saudáveis, podendo até reduzir o risco de ocorrência de doenças crônicas, como diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer. Entretanto, a nova investigação feita em comunidades japonesas sugere que o efeito preventivo da bebida depende do nível de pressão arterial do consumidor e se aplica apenas a pessoas sem hipertensão grave.
A equipe analisou dados coletados pelo Japan Collaborative Cohort Study for Evaluation of Cancer Risk — um estudo prospectivo iniciado entre 1988 e 1990 para avaliar risco de ocorrência de câncer em adultos. “Um total de 18.609 participantes, 6.574 homens e 12.035 mulheres, com idade entre 40 e 79 anos, de 24 comunidades foram incluídos nas análises”, detalha o médico Masayuki Teramoto, coautor do estudo e mestre em Saúde Pública. (Leia Duas perguntas para).
Os cientistas consideraram dados sobre a pressão arterial dos participantes, além de características demográficas, histórico médico, estilo de vida e dieta. Para análise, classificaram a pressão arterial em cinco categorias: ótima e normal (menos de 130/85mm Hg, conhecido popularmente como 13X8), normal alto (130-139/85-89 mmHg), hipertensão grau 1 (140-159/90-99mmHg), grau 2 (160-179/100-109mm Hg), e grau 3 (maior que 180/110 mmHg). Os graus 2 e 3 foram considerados como hipertensão grave.
Durante quase 19 anos de acompanhamento, 842 pessoas morreram em decorrência de problemas cardiovasculares. A análise de dados chegou a um risco dobrado de ocorrência de complicações cardiovasculares entre os participantes enquadrados nos graus 2 e 3 de hipertensão. “Essas descobertas podem apoiar a afirmação de que pessoas com hipertensão grave devem evitar beber café em excesso. Como elas são mais suscetíveis à cafeína, os efeitos nocivos dessa substância podem superar os protetores e aumentar o risco de morte”, afirma, em nota, Hiroyasu Iso, diretor do Instituto de Pesquisa de Políticas de Saúde Global, professor emérito da Universidade de Osaka e autor sênior do estudo.
AVC e infarto
O cardiologista Carlos Rassi, do Centro de Cardiologia do Hospital Sírio-Libânes em Brasília, explica que a hipertensão arterial sistêmica pode ocasionar diversas consequências no sistema cardiovascular, inclusive complicações fatais. “Essa elevação dos níveis de pressão arterial acima dos valores considerados normais para a população em geral pode levar à hipertrofia das musculatura cardíaca, ao aumento de incidência de acidente vascular cerebral e de infarto agudo do miocárdio”, lista. “É uma doença de altíssima morbidade e também de um grau significativo de mortalidade a longo prazo”.
A análise não mostra uma maior vulnerabilidade entre aqueles sem hipertensão ou com hipertensão grau 1. “O consumo em doses pequenas e moderadas não tem grandes efeitos no sistema cardiovascular. É o tipo de situação que, em um paciente que não é hipertenso ou que é hipertenso leve a moderado, isso, talvez, não tenha significância clínica”, afirma Rassi.
Já doses elevadas para um indivíduo com pressão alta grave podem ser “a gota d’água para ele ter uma elevação adicional da pressão e ter complicações por isso”, enfatiza Rassi. De acordo com o cardiologista, esses pacientes têm uma sensibilidade maior a efeitos adrenérgicos, fazendo com que qualquer ação adicional na pressão arterial tenha consequências significativas.
Chá protetor
O estudo também avaliou o efeito do chá-verde entre os participantes. Em contraste, a bebida não foi associada a um risco maior de mortalidade por doença cardiovascular independentemente do perfil dos voluntários. Uma das hipóteses levantadas é de que propriedades do chá, como a presença de polifenóis em abundância, podem estar ligadas à redução da pressão arterial entre pessoas com pré-hipertensão e hipertensão estágio 1. “Além da presença de polifenóis, outra possível explicação para esse efeito seria a quantidade menor de cafeína presente no chá-verde”, comenta Carlos Rassi.
A equipe japonesa lista algumas limitações do estudo, como o fato de o consumo de café e chá ter sido relatado pelos participantes, e não acompanhado, e sugere que novos estudos sejam conduzidos para confirmar as relações observadas. “Mais pesquisas em diferentes populações são necessárias para confirmar os efeitos do consumo de café e chá-verde em pessoas com hipertensão grave”, afirma Teramoto.
Duas perguntas para Masayuki Teramoto, coautor do estudo e mestre em saúde pública
Como o café pode ser benéfico para algumas pessoas e prejudicial para outras?
Os conhecidos efeitos protetores do café estão ligados a diminuição dos níveis de colesterol, melhora da função endotelial e redução de inflamações por ingredientes como ácido clorogênico e outros compostos fenólicos. Como os hipertensos são mais suscetíveis aos efeitos da cafeína, os efeitos nocivos podem superar seus efeitos protetores e aumentar o risco de mortalidade em pessoas com hipertensão grave.
Informações sobre o estilo de vida dos participantes também foram levadas em consideração na coleta de dados. Por que é importante analisar esses fatores?
Isso é para remover a confusão por outros fatores, que podem ser a causa real da aparente associação. Por exemplo, é bem conhecido que o consumo de café está associado ao tabagismo, mas se o efeito do tabagismo não for levado em consideração, a associação observada entre o consumo de café e doenças cardiovasculares pode não ser verdadeira por causa do efeito do tabagismo.

Por: Correio Braziliense

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